Introdução

Quem perguntasse para a menina Sonia o que ela queria ser quando crescesse, certamente iria ouvir algo
bastante destrambelhado. Ela já quis ser tanta coisa que chegou a sonhar ser mulher de pirata. Mas aos poucos foi percebendo que não era muito fácil encontrar piratas em Minas Gerais e seus sonhos foram mudando.
Sonia cresceu e aprendeu a gostar de livros, das histórias orais. Começou também a pegar gosto pela escrita e, aos poucos, seus sonhos e imaginações foram formando linhas, parágrafos, narrativas em cadernos. Pegou tanto gosto por escrever, que criou mania de escrever sem lápis nem papel, rabiscando letras invisíveis com o dedo de uma mão na palma de outra. E o prazer que os movimentos da caligrafia lhe proporcionavam era tão bom, que aprendeu a escrever até mesmo com as duas mãos.
Depois de dominar a técnica e a fluência da escrita, foi colocar isso em prática. Quando se mudou para São Paulo, foi trabalhar na Editora Abril, em 1972. Era a fase que a editora fervilhava de intelectuais, pensadores, grandes escritores, e no meio disso tudo um forte desejo de que nascesse uma nova literatura infantil e juvenil. Sonia Junqueira resolveu pegar esse bonde e ainda na Abril escreveu a Coleção A Mágica das Palavras.
Alguns anos mais tarde, Regina Mariano, editora da Ática, convidou Sonia para um trabalho temporário. Mas desse primeiro convite a história foi crescendo, crescendo, e Sonia acabou escrevendo toda a premiada Coleção Estrelinha.
De coleção em coleção, passando por O que aconteceu no caldeirão da bruxa e Português em sala de aula, Sonia Junqueira tornou-se um nome conhecido na literatura para crianças e jovens. Porém, quando seu destino parecia resolvido, a menina imaginativa ainda sonhou outra vida para si e começou a trabalhar como editora. Descobriu então o que mais gostava de fazer.
Nunca abandonou a carreira de escritora, mas tem atuado como uma das mais conhecidas editoras do país, já editou, entre muitos outros, autores como Sylvia Orthof, Fanny Abramovich, Vivina de Assis Viana, Ronald Claver…

Menina levada

Meu pai era muito autoritário e queria que eu fosse obediente. Eu tinha uma frase assim: “Eu morro, mas não entrego”. Era muito parecida com ele, também muito autoritária. E minha mãe achava um absurdo eu ser malcriada, brigar com os irmãos, porque só nós fazíamos isso, ninguém mais. Imagina! Era uma tentativa, o tempo todo, de me controlar. Falava que eu não tinha modos: “Essa menina não tem modos, é geniosa”, não-sei-o-quê. Eu era levada, bem moleca, mas não era uma coisa maldosa. Era uma coisa meio ingênua, meio pura, de fazer molecagem mesmo, de pregar peça nos outros, de inventarhistórias.
Eu inventava muita história, e contava. Inventava coisas biográficas, por exemplo. Já fui espiã que nem Mata Hari, já fui mulher de pirata… Escrevia a biografia que queria. Teve uma época em que queria ser pirata, mas não se usava mulher ser pirata, então disse: “Vou ser mulher de pirata”. Escrevi a biografia como mulher de pirata. Eu era rebelde e muito preguiçosa. Naquele tempo se usava as meninas ajudarem as mães nas tarefas domésticas, o que fazia com a maior má vontade, porque não gostava de trabalho de casa. Às vezes começava a fazer uma coisa, largava e ia embora. Minha mãe me pôs o apelido de “Sinfonia inacabada” porque eu começava a arrumar as camas e ia embora, começava a fazer não-sei-o-quê e ia embora. E a coisa que eu mais fazia, e gostava muito, era ficar no quintal sozinha, deitada no chão, vendo carreira de formiga passar. Depois que a chuva para as lesmas e os caracóis saem dos buracos. Então eu fazia uma das minhas coisas preferidas, que era jogar sal em lesma depois da chuva, um assassinato. Gostava muito de ficar olhando as nuvens no céu virar figuras. Mas o que eu mais gostava de fazer era ler. O que mais fazia na infância: ler.

Nasci gostando de ler

A minha não era uma casa de leitores e na escola também não se usava muito indicar leitura. A sensação que eu tenho é que nasci sabendo que ler era ótimo, porque não me lembro como comecei. Mas tinha uma professora meio aparentada de longe com o meu pai que tinha muito livro, a coleção completa de Monteiro Lobato e disponibilizava para os primos, sobrinhos, amigos dos sobrinhos. E eu comecei a pegar livros lá, e também na biblioteca da escola, às vezes. E comprava também. Lia muito gibi, que era proibido, mas eu tinha um caixote enorme e escondia embaixo da minha cama. Adorava fazer coisa proibida. Falou que é proibido, eu quero. Quanto mais proibido, mais eu lia gibi escondida. Naquela época as famílias não recomendavam gibi, não era leitura recomendada para meninos ou meninas.

Histórias de pai e mãe

Minha mãe contava muita história, meu pai também. Eu lia muito também. Essas histórias, por exemplo, recontei chamando de A noite assombrada, aquela em que começam a cair pedaços de gente. Uma mãe e uma filha, muito pobres – o pai morreu –, não tinham dinheiro para nada e foram morar numa casa abandonada e mal-assombrada.
Ninguém chegava perto porque tinha gritos, barulhos. Mas elas não tinham para onde ir e foram dormir lá. De noite, a moça começa a escutar uma voz tremida, assim: “Eu caio, eu caio”. Essa coisa se repetia e cada vez que a voz falava caía um braço, depois outro braço, uma perna, depois outra perna. Depois caiu o
tronco, a cabeça. Na frente da moça apavorada todas as partes se juntaram e formaram um homem, era o antigo dono da casa, que tinha maltratado muita gente, e o castigo dele foi morrer e não ter descanso, ficar assombrando pessoas, até que alguém tivesse coragem de esperar as partes todas caírem, para libertar o homem daquilo.
E como a moça tinha tido aquela coragem ele podia descansarem paz na eternidade. Em troca, ele contou a ela onde estava enterrado um tesouro dele. Ele tinha sido riquíssimo, tinha um tesouro enterrado no quintal. Ela e a mãe pegaram o tesouro, ficaram ricas e assim acabou a história.
Tinha aquela em que a princesa ia dançar toda noite – Os sete sapatos da princesa – e gastava um par de sapatos por noite. Era levada por um diabinho para dançar – uma coisa de encantamento. Recontei A vingança da caveira, que é muito legal: um cara gozava de mortos e defuntos, até que uma caveira aparece para ele… Ah, sei lá, tanta história! A roupa do rei, aquela que o rei estava nu… Uma que eu gostei muito de recontar foi A lenda da gralha-azul, lenda do sul do país, da gralha-azul que planta pinhões.

Ritual de contação

Às vezes era um momento da família. Às vezes era nas férias, a gente ia para casa de algum tio e juntava todo mundo para contar e ouvir histórias em volta do fogão a lenha. Eram histórias de assombração de dar medo. Era uma delícia! Menina adora história! Fiz a Coleção Baú de Histórias, inspirada nesses momentos. Era tão legal ouvir que deu vontade também de contar do meu jeito. Então, escrevi um monte.

E tem milhões de outras histórias que eu gostaria de contar também. Essa coisa de recontar é outro barato, porque às vezes junto duas histórias, faço recontos, invento muito em cima também. Mantenho o fio, o enredo, mas invento muito.

Saborear palavras

Eu não me lembro muito bem do primeiro dia de escola. Sei que estava louca para ir para a escola e aprender a ler. Naquela época a gente aprendia com sete anos. Adorei, aprendi a ler logo. Eu saboreava palavras… Foi uma experiência maravilhosa. Uma das experiências mais ricas, bonitas e emocionantes que tive na infância foi a de aprender a ler.
Lembro que fui alfabetizada com O livro de Lili, muito famoso na época. Era um método global, uma novidade. Uma coisa apaixonante esse livro! Na minha geração, em Minas, onde parece que o livro foi
mais adotado, tem uma legião de apaixonados por O livro de Lili. Quando a gente começa a falar a respeito dele, todo mundo tem uma coisa para lembrar, sabe de cor várias lições do livro, vários trechos. Tem gente que se emociona, que chora. Fizeram uma confraria de alfabetizados com O livro de Lili, de camiseta e tudo, porque era realmente apaixonante.
E a implantação da cartilha – chamava livro, mas era cartilha mesmo – foi uma estratégia de marketing fantástica, porque antes de o livro chegar começaram a divulgar que ia chegar a Lili: quem seria Lili? E Lili pra cá, Lili pra lá, e foram envolvendo a gente com aquilo. Parava um carro: “Será que a Lili chegou? Será que é ela?”. É. Não é. Criaram aquela expectativa na gente e quando chegou O livro de Lili todo mundo estava pronto para receber. E era uma delícia! A gente aprendia com a maior facilidade e a professora que me alfabetizou se chamava Lili também. O livro trazia lições e leituras; tinha cartazes nas paredes com as lições ampliadas, as ilustrações; e umas fichas com segmentos de frases que a gente cortava e colava no caderno para formar frases. Lembro-me da cor, da textura, do cheiro dessa coisa de ficha. Lembro de tudo. Foi uma coisa maravilhosa. E eu deslanchei. Um dia cheguei em casa, com pouco tempo de escola, e estava lendo. Minha mãe chorou, ficou emocionada.

O livro de Lili

A primeira coisa: “Eu me chamo Lili, eu comi muito doce. Vocês gostam de doce? Eu gosto tanto de doce!”. Ela tinha uma cachorrinhaque se chamava Suzete. E ela tocava piano e a Suzete a ouvia tocar. Quando ela parava, Suzete falava: “Toca, Lili, toca!”. Tinha uma das meias, ela falava: “Eu vou calçar as minhas meias. As minhas meias são azuis. Ó, que pena! Minha meia tão bonita está furada! Eu não sei coser, como há de ser?”. Mas não consigo lembrar o nome da autora. Eu me lembro de tudo do livro, mas não consigo lembrar o nome da autora. Procuro esse livro em tudo quanto é sebo, entro na Estante Virtual direto para ver se o encontro. E quem tem não passa para a frente de jeito nenhum. Foi uma coisa muito emocionante. Nunca vi ninguém tão apaixonado pelo livro em que aprendeu a ler quanto o pessoal que aprendeu na Lili. É um negócio espantoso!

Para conhecer o relato de Sonia Junqueira na íntegra, acesse o site do projeto Memórias da literatura infantil e juvenil.

Lá se encontram, também, relatos de: Ana Maria Machado, Ângela-Lago, Anna Flora, Bartolomeu Campos de Queirós, Chico dos Bonecos, Cláudio Fragata, Edy Lima, Fanny Abramovich, Giselda Nicolelis, Heloísa Prieto, Jorge Miguel Marinho, Lalau, Luciana Sandroni, Luis Camargo, Luiz Antônio Aguiar, Luiz Galdino, Marina Colasanti, Mary França, Mirna Pinsky, Pedro Bandeira, Ricardo Azevedo, Rogério Andrade Barbosa, Ruth Rocha, Tatiana Belinky, Yaguarê Yamã, Ziraldo, Alcy Linares, Ciça Fittipaldi, Claudio Martins, Eliardo França, Gian Calvi, Jô Oliveira, Marilda Castanha, Michelle Iacocca, Nelson Cruz, Rui de Oliveira, Walter Ono, Fernando Lemos, Fernando Paixão, Maristela Petrilli, Sâmia Rios, Edmir Perrotti, Laura Sandroni e Nelly Novaes Coelho.

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