O menino poeta de Henriqueta Lisboa

Gabriela Mistral

A poeta chilena que recebeu em 1945 o Prêmio Nobel de Literatura veio a Belo Horizonte e proferiu duas conferências, sendo uma sobre O menino poeta, de Henriqueta Lisboa, que você lê abaixo

A poesia de crianças ou sobre crianças oferece, como todos sabeis, as maiores dificuldades, escasseando por isso, em nossa América crioula, onde se querem musas mais fáceis de menos riscos.

E como não havia de ser difícil fazer falar a uma criança? Esta poesia exige nada menos do que o milagre: um pouco de balbucio na fala, uma tal brincadeira alada e índole de humildade, pois não se trata de brilhar nem de arrebatar. Porém o mais necessário é que, por esta poesia, corra, do começo ao fim, uma água, um retouço, um cosquilhar de graça pura.

Lendo O menino poeta, fiquei sabendo que o português se presta, muito mais do que as línguas famosas, à poesia infantil. Tendes vós outros um idioma mais leve e mais terno também. Nem no inglês ou no francês, nem mesmo no castelhano, existe a ternura do vosso idioma, inefável favor que só com o italiano ele reparte.

O menino poeta, como todo livro, é ao mesmo tempo um miúdo e rico panorama. Dizendo miúdo, quer dizer-se que não é vasto nem basto. Assim, a miniatura e a aquarela: uma tal quantidade de temas, uma série de acidentes. Não é fácil conter dez ou vinte assuntos dentro de tão pouco espaço; mas o livro de Henriqueta logrou o milagre dos cartões chineses – a concentração sem peso.

Abre-se ele com a apresentação do Menino, de corpo inteiro. 

Que donosos os primeiros versos:

O menino poeta

não sei onde está.

Apresenta assim o filho da imaginação, realíssimo para ela, mas que deve comprovar, em contas claras, para os que não veem visões. Mais longe, confessa que ainda o não viu. Dá-lhe um vizinho notícias dele; também lhe dá um romeiro. De repente ela o vê, mas não lhe dura a certeza: 

Ai! que esse menino

será, não será?…

Procuro daqui

procuro de lá.

E acrescenta, porque se vai enchendo de dúvidas: 

O menino poeta

quero ver de perto.

Se o procura é para que ele dê notícias “do céu e do mar”.

Parece que lá para o final está a confissão: nossa poetisa, como todo poeta autêntico, anda em busca de sua infância; quer revivê-la tornando a entrar na gruta onde esteve dez anos, cercada de maravilhas. Essa volta à infância, ao país perdido, ela vai empreender como seus grandes irmãos – Tagore, Romain Rolland, Philipp ou Carroll. Um grande pudor, a repugnância da vaidade, fazem-na escrever o poema em terceira pessoa, quando o poderia fazer na primeira, pois liberdade e capricho estão concedidos ao poeta.

Na “Cantiga de neném” não sabemos se Henriqueta, sempre escondida no impessoal, como em mata espessa, nina o menino poeta ou se ele se nina a si mesmo. Tenho visto peraltas, que cantam sua cantiga de ninar, para fingir que vão dormir. Henriqueta possui toda a brandura de voz que se quer numa canção de berço; fará surpresas, se se puser a escrever mais, e muitas, para as mamães mineiras.

É bonito o “Cavalinho de pau”, que galopa deveras e nos leva na garupa, porque não se resiste ao ritmo e todos corremos com ele, para ir matar a Lampião, e até damos um suspiro de alívio ao apearmos. Ouçam-no e digam se podem ficar quietos, sem vontade nenhuma de saltar à garupa do cavalo.

É da magia de ritmo, feitiçaria, poder e malícia. E ainda que isso pareça mal aos futuristas, que encomendam ao diabo os ritmos clássicos, digam se não é verdade que o poeta é um bailarino, uma roda de moinho giradora, um tombo de onda, ou esse golpe que, dado em uma lasca de pau, a manda voando sobre o cavalo mais veraz que nunca se viu galopar.

Ao ritmo poético, que não lhe toquem, que nô-lo deixem; é o joguete do Verbo e, assim, parte da alegria terrestre.

O “Segredo” que a andorinha colheu no fio e levou como recado aos sinos, que se apressaram em espalhá-lo, parece-me, em sua realização brevíssima, uma façanha. Em onze linhas que não pesam o que pesa uma de outros poetas, Henriqueta conseguiu quanto queria. É uma história quase sem palavras, com sinais e gestos.
A poetisa também é criança, pela rapidez com que conta. Em seus admiráveis Elogios, fala-nos Maragall de uma menina que lhe disse três palavras cortadas, apontando três coisas. E assegura que a linguagem foi suficiente. Achamos banais as crianças. Que hão de fazer? A verborreia culta ainda não as contaminou; falam com um substantivo, um verbo solto, uma interjeição ou um grito, e nisso fazem caber todo o sentido, como no caso da menina de Maragall.

A “Corrente de formiguinhas” vê-se, vê-se! Cabecinhas de
alfinete, cinturinhas fininhas, subindo o morro e carregando folhas mortas, que são os andores da procissão do Senhor dos Passos. As correntes de formigas, que em minha casa persigo cada semana e não consigo vencer; e as daquelas outras mais atrevidas, que me entram pela porta, me sobem pelos armários, me invadem os potes de mel, que enegrecem nuns momentos, não são mais verdadeiras que as do poema. O ritmo foi outra vez bem achado: não há galope e sim o arrastado silencioso dos passos, sigilo hipócrita, no constante acabar e recomeçar das pessoinhas infatigáveis.

“Tempestade” tem diálogo. Henriqueta disputa o menino ao vento e à chuva:

Olha a chuva lá na serra,

olha como vem o vento!

Mas o menino defende seu prazer: 

– Ah! como a chuva é bonita

e como o vento é valente!

Eu ainda não havia topado com esse apelativo tão justo e tão simples do vento: valente. Melhor do que chamá-lo de louco é chamá-lo apenas de valente. A poetisa não persegue adjetivos, como quem caça faisão, pelo gosto do exótico. Aqui está um epíteto comum, de todo dia, que se casou bem com o objeto: vento valente.

A irmã mais velha falhou, com seu desvelo: os dois últimos versos, não o dizendo, nos fazem ver o menino lá fora, de cabeça ao vento e à chuva. Entre as sabedorias de Henriqueta está esta de sugerir, com aquele tino do aquarelista chinês que acaba sem acabar demais.

O menino, sendo menino, é andejo, travesso, novidadeiro e fantasista. Agora, ronda uma lagoa de patos. Vê chegar o bando, vê os patos nadarem com seus flocos de paina, rompendo os céus da água. Os leitores também os olhamos, com o menino, curiosos como ele, e até rimos, adivinhando as patas velhas, alarmadas com o risco da estreia delas na água.

Henriqueta, quando escreve, dá-nos o melhor do contador:
o tato das coisas; dar as cores não lhe basta. Essa lagoa de patos é um êxito completo. Estivemos à sua margem. Quando nos abeirarmos de alguma outra, de verdade, voltar-nos-á esta à memória, porquanto assim acontece quando a arte trabalhou tão bem que nos confunde o corpo com seu fantasma.

Vai outra vez atrás dele a guardiã do menino poeta, quase a tocar-lhe os calcanhares, na poesia “Pomar”. Ele, descalço, tem mais coragem do que os meninos calçados. Vai de galho em galho, imprudente e ansioso, o ladrãozinho. Ela grita por ele, assobia-lhe, enquanto, junto à árvore, quase o vê perder pé e cair.

Que belo remate – “passarinho comeu…”! O figo melhor, o figo maduro, talvez já rachado, não foi para seu dono, porque foi do passarinho.

Gosto muito de “Os quatro ventos”. Em refega desabalada, os quatro frenéticos pediram que o poeta deixasse a rima, para maior desafogo. (Deixasse a rima, em verso branco e não verso livre, pois, graças a Deus, aqui também o ritmo se conserva.) Os meninos veem, como num fresco de aeródromo, veem os bufadores, os quatro loucos do céu a passar, a passar. Como quem arranca ao mundo a sua casca e o lança no espaço.

Grande assombro é o vento, na infância: perturba, excita e convida. Tivemos todos vontade de ir com ele, arrebatados por ele. E o condutor de polens, tomando-nos os cabelos em remoinho, deixou-nos férteis, com a boca seca, mas ébrios das chicotadas.

Belíssimo o final do poema, magistralmente infantil:

 

Cavalos sem dono

cavalos sem pátria

 cavalos ciganos,

 sem lei nem rei.

 Quatro cavalos em pelo.

Esse êxito, alcançado à margem da rima açucarada, está provando que ela não faz a poesia – como acreditavam nossos avós – mas tão somente a aduba e polvilha, com sua calda pegajosa. É possível que “Os quatro ventos” sejam dos que mais vão atrair a clientela mirim. Trautearão um dia suas estrofes todas as bocas dos meninos mineiros.

Os ventos correram desatinados, mas a “Estrelinha do mar”, que segue, tem virtude oposta; é quieta como um ser búdico, preciosa e preciosista. Henriqueta lavrou-a como uma joia; viu-a e faz-nos vê-la. O primor é de mão portuguesa, lavradora de prata e rendilhas; a habilidade recorda Eugénio de Castro. Mas é tudo feminil, quando não angélico, nessa minha irmã. E aperfeiçoa o esmalte da estrela marinha, contando que dormiu no regaço da sereia.

Grande acerto o dos joelhos vermelhos. Talvez não sejam verdes se não escarlates as carnes das sereias que tanto incenderam nautas gregos e fenícios.

Admiro, como velha mestra, tenha Henriqueta vencido a fatalidade pedagógica, no poema “Colégio”. São lindos, meninos soltos, à vontade; vai-se-lhes, porém, todo o donaire quando se põem em fila, quando se assentam em bancos de pequenos delinquentes. Salva-os, no entanto, até na pedagogia, a nossa contadora milagrosa:

Dois a dois

dois a dois

A fila parece um barco

elástico

movido

por inúmeros 

remos.

Que triunfo tornar em barco de regatas um esquadrão escolar! Outros poetas que o tentaram (e eu com eles) jamais conseguimos transfigurar a imagem odiosa do pelotão que se move da sala de aula, ou para a sala de aula.

Admiro tanto que quase lhe invejo os “Castelos” de areia e os tenho por um dos primores do livro. Henriqueta gosta de areia, gosta do ar e do floco de paina, como do vapor da névoa, porque essas matérias são as de sua alma e também de seu corpo. Todos nós vamos empós daquilo que se parece conosco e às vezes o encontramos com facilidade, como Henriqueta, parenta da areia.

Saboreando os “castelos”, repetimos com gosto a velha definição das Preceptivas: fundo e forma são a mesma coisa quando o poeta se identificou deveras com o assunto, quando se deixou dele embeber como uma esponja. Não há poeta e tema aqui: há uma mulher transformada em areia e essa areia se diz a si mesma com língua desfiada em grãos.

“Mamãezinha” é um poema bem crioulo. Por fim, com ele, a mãe pobre (a mãe feia, por cansada) sobe aos cristais da poesia, até onde estamos acostumados a ver apenas mães burguesas. Vai o menino, como todos os meninos do mundo, agarrado à barra da saia materna, pela casa e pelo pátio cobrando de sua mãe a estória que lhe prometeu. Esta, porém, primeiro está ao fogão, que não pode desamparar; daí passará ao tanque, onde não pode deixar um monte de roupa; vinda a noite, cairá na cama, com um sono de pedra que lhe não deixará contar coisa alguma. Dormirá com a estória na garganta e o filho dormirá ao lado, com a boca entreaberta, na sede dessa estória.

Bem puderam os poetas proletarizantes contar a pobreza-miséria como Henriqueta Lisboa, sem gritos nem agruras, e, sem embargo, com um tão sombrio e amargo sedimento de convicção.

A irmã mais velha do menino, essa mestra que o ajuda a ver o que não vê e a dizer o que não diz, agora lhe fala do Tempo. Chama-o de “fio”, folclórica e classicamente, sem medo do lugar-comum, pois fugir sempre deste costuma dar em grande pedantismo.

Nem tudo neste livro é jogo, sol e frutas: aqui está a melancolia e seu montículo de cinza. Nunca aparece libertada dela o sangue português. Mas que distância entre a lição catedrática sobre o valor do Tempo, ditada por Franklin, e este suspiro sobre o fio do Tempo, que o vento vai levando.

O menino poeta vive entre um bando de outros como ele; de outros e de outras, pois de repente Henriqueta nos apresenta duas meninas, e de corpo inteiro. São dois ângulos opostos: talvez vão ser, quando crescerem, Maria Prudência e Maria Loucura. O poeta continua, já o sabemos, o seu processo de alusões, sem declarações, não nos dizendo o que têm essas meninas com o menino poeta. Será que são ribeiras opostas, entre as quais navegará o coitado, quando cresça e tenha músculos e buço? “Morena e Clara”! Por qual vai ele padecer ou em qual vai colher a ventura, como um ramalhete de lilases? Quem nos dirá o que vai acontecer aos sete aninhos, quando alcance a medida de Adão – o pobre Adão que nunca foi menino? Não o quis que soubéssemos a sua mãe, Henriqueta Lisboa, com o seu gosto de vaguice e mistério, redondo inimigo da pedra de cantos quadrados – que é o relato completo. Contentemo-nos só com a suspeita e com as nossas conjecturas. Em todo o caso, o poeta já nos adianta muito: duas meninas taludas, duas corsas pequenas, sem cornos que ataquem ou firam. Morena e Clara devem ser amigas do menino que as olha intranquilo, vendo-as tão opostas, a do “cabelo de doce de leite” e a “de música brusca como arranha-céus”.

Henriqueta criou-se numa região de rios. Em que lugar do Brasil não haverá pelo menos um rio maior do que todos os nossos rios chilenos juntos? Esta terra não se chama de sol tão somente, mas também de águas; será por isso que seu habitante não se torna frenético e vive isento do calor excessivo. A poetisa devia contar os rios a seu menino, assim vivos, para que ele os veja e ouça e lhes aprenda as margens e lhes siga o curso e lhes descubra o segredo com que fogem.

O poema “Os rios” é dos melhores do livro. Várias vezes o li para que também eu ouvisse passar esse rio maior, de águas pesadas, velho rio carregado com as experiências do seu leito e das circunstâncias da margem; rio que, gritado, não ouve e, com desdém de herói, corre em busca de sua morte; não nos conta seu segredo, talvez porque seja, não de vida, mas de morte. O menino brasileiro e poeta não podia ficar sem esse corno líquido de abundância, quer se chame Paraibuna ou São Francisco, o das maravilhas.

Ao menino poeta e a mim faziam falta os “Pirilampos” no poema uno e plural. Aqui assomam eles, em cem nós de rede voadora, no seu verde de folhas noturnas, de folhas caídas de uma árvore de fogo que só existe à noite e se apaga antes que venha o sol. É outro poema dos mais acabados, sobeja prova de que Henriqueta vê bem o diurno e o noturno e sabe encantar as três idades.

É bem verdade que o poeta é um retribuidor dos regalos da luz; não deixa de devolver, como fazem esquecidos e ingratos. Quando estiver longe, em terras frias por onde não se acendam à noite os pirilampos, tomarei comigo estes daqui de Minas, que me passem de novo junto ao rosto, por sobre os ombros, com seu estranho silêncio de sinais ocultos.

Henriqueta faz também ironia, quando quer. A ironia costuma ser como uva em agraço; não chega a desgostar e evita o fastio do racimo sazonado. Como lhe fica bem essa ironia àquela que é quase sempre terna! Não, ninguém morreu na selva, nem houve incêndio e nem passou o jaguar rompendo matagais. Como nas revoluções crioulas, toda aquela algazarra era de um grito e três mil ecos.

Lindas casas sabe você fazer, minha irmã mineira:

CASA

Casa no mar

no fundo do mar.

Casa de madrepérola

com balanços de água,

caracóis de espuma 

e delícia muita

para brincar.

Casa no céu

no topo do céu.

Casa de luzes

com trapézio de nuvens,

a trombeta dos anjos

e muitíssimo ânimo

para brincar. 

Casa na terra

num canto ou noutro.

Casa de tijolo

para morar.

Anseia pela do mar, como mulher do interior; quererá a do céu, porque é feita de materiais inefáveis, os mesmos da sua poesia; a da terra, que é de tijolos, você a quer por ser a de sua mãe e não a deixa em segundo plano nem depois de ter visto a da água e a do ar.

Mas, crendo você viver somente nela, vive juntamente em todas três. Entrega-lhe o desejo a do mar e a fome do Eterno lhe antecipa a do céu. Como nas figuras cubistas ou nas bonecas russas, as três casas se penetram e acomodam, uma dentro da outra. E sua poesia, Henriqueta Lisboa, você a faz, sem o saber, dentro das três, debaixo do zodíaco, da maré e do tijolo espesso. Por isso, ao mesmo tempo, ela nos faz tocar a altura, a profundidade e o rés da terra.

Nessa fantástica casa tríplice me fez você entrar, como hóspede. Acabando o livro, parece que saio dela, mas na verdade permaneço nela, como no interior dos forros que envolvem a granada.

Desta vez, receber será agradecer e segurar bem com as mãos fechadas, para que não escorregue o tesouro e nem caia nunca ao chão.

 

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