Ser índio em tempos de luta pela terra

Sou o que sou: um índio precisando mostrar ao mundo minha gente e apresentá-la com toda a beleza e tradição correndo em suas veias. Essas veias de índio, fervidas ao sol do meio-dia no coração da Amazônia. É isso o que sou.

É isso o que são: gente precisando mostrar-se ao mundo como são. No coração, na coragem e na união. Somos muitos do pouco que restou. Apesar das dificuldades da labuta diária em prol dessa mãe-terra. Apesar da dureza dos muitos que nos cercam e minam a quantia dos que querem o bem da vida. Mesmo assim, continuamos firmes. Ainda assim, nos orgulhamos de sermos índios.

Mas o que é ser índio?

Será que ser índio é estar contra o progresso? É viver sempre do lado oposto à tecnologia e à evolução? Será que é um estado de espírito?

Um estado de espírito pode ser. Mas contra o progresso? Contra a evolução? Isso jamais. Muito menos é estar do lado oposto ao homem branco.

Ser índio, na verdade, é lutar pela terra, não pelo território (algo privado); é lutar pela terra, que é mãe de todos nós. É viver na terra aliando a ela nosso bem mais sagrado à nossa alma.

Ser índio é buscar conhecimento para ajudar a natureza. É viver a natureza para ajudar nossos irmãos.

Ser índio é bom. É ser de uma raça parecida com a dos outros, convivendo com índios de outras raças.

Mas então vem o homem mau e diz que não pertence à terra e busca fazer dela somente seu capital. E para isso busca tirar os índios da terra. Denigre nossa imagem e distorce nossos ditos.

Dizem: ?Para quê tanta terra para pouco índio??. ?Essa gente só faz dificultar o progresso?.

A ignorância dos 500 anos perdura em nossos dias. Por isso, é de direito lutar pela terra.

E falando em terra, a maioria delas está sem solução para o problema de demarcação ou sem reconhecimento. E, entre as demarcadas, a maioria está invadida.

Então surge a força dos homens maus para tirar nossos direitos. Direito do índio, essa gente que só quer viver em paz, trabalhar em paz e viver a dignidade dos antigos, quando tudo nesse mundo era antigo e a natureza reinava.

Hoje, a natureza não reina ? é perseguida ?, e ainda tem gente dizendo que tem muita terra para pouco índio.

Mas é possível, sim, aliar o progresso à tradição. A tradição boa e o progresso bom. É possível aliar a natureza à modernidade.

É possível, sim, conviver em paz com a natureza e ser percebido por olhares sem preconceito, por olhares sem vícios com o materialismo. Materialismo este que destrói e extermina. Materialismo dessa gente que pensa não ter vínculo com a terra, pensa não ser filho dela.

Mas a verdade é que todos somos filhos da mãe-terra. E todos nós precisamos da terra, assim como ela precisa de nós.

A verdade é que ninguém é realmente dono da terra. Ela é que é nossa dona. E a verdade está aí.

É por isso mesmo que, vivendo em tempos em que o materialismo domina, nós, índios (todos aqueles que se consideram filhos da mãe-terra), precisamos lutar para preservar nossa mãe. É por isso que lutamos pela terra.

copyright do autor

Yaguarê Yamã pertence ao povo Saterê Mawé, que vive na fronteira entre os estados do Amazonas e do Pará, numa região de floresta. Seu nome, Yaguarê Yamã, significa “o povo das onças pequenas”. O escritor tem editado pela Peirópolis o livro de contos Puratig, o remo sagrado.

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